Câncer de garganta
A cura de um câncer de cabeça e pescoço não termina na última sessão de radioterapia ou na alta hospitalar após a cirurgia. Para o cirurgião, o sucesso clínico é medido pela eliminação da doença; para o paciente, o sucesso real é medido pela capacidade de retomar sua rotina, o que inclui sentar-se à mesa e comer sem medo. A radioterapia, embora seja uma ferramenta poderosa e muitas vezes indispensável no tratamento de tumores de laringe, faringe e boca, atua como uma faca de dois gumes. Se por um lado ela destrói as células neoplásicas, por outro, pode desencadear um processo de fibrose que compromete a dinâmica da deglutição. O cenário é comum: semanas após o término das sessões, o paciente nota que os alimentos sólidos parecem “parar” no meio do caminho. A saliva escasseia — a xerostomia — e a musculatura do pescoço, antes flexível como seda, começa a se comportar como um couro endurecido.
Esse fenômeno não é um erro do tratamento, mas uma resposta biológica à radiação. O desafio estratégico aqui é a antecipação. Não podemos esperar a disfagia (dificuldade de engolir) se instalar de forma severa para começar a agir. O planejamento deve ser preventivo. O conceito de “Use it or Lose it” (Use ou Perca) A reabilitação moderna em cabeça e pescoço baseia-se na manutenção da função durante o tratamento. Antigamente, a recomendação era o repouso. Hoje, sabemos que a inatividade muscular durante a radioterapia acelera a atrofia dos constritores da faringe. É aqui que entra a importância dos exercícios de deglutição realizados de forma profilática.
Imagine um paciente, vamos chamá-lo de Sr. Jorge, diagnosticado com um carcinoma epidermoide de orofaringe. Antes mesmo de iniciar a primeira dose de radiação, ele é inserido em um protocolo de exercícios. Ele não treina para recuperar algo perdido, mas para fortalecer o que ainda está íntegro. Algumas manobras técnicas que fazem parte desse arsenal incluem: Manobra de Masako: O paciente segura a ponta da língua entre os dentes e engole a saliva. Isso força a parede posterior da faringe a trabalhar com mais intensidade, combatendo a rigidez futura.
Manobra de Mendelsohn: Consiste em prolongar a elevação da laringe durante o ato de engolir, mantendo-a no topo por alguns segundos antes de relaxar. Isso ajuda a abrir o esfíncter esofágico superior. Exercícios de resistência da língua: O uso de abaixadores de língua ou dispositivos específicos para fortalecer a base da língua, garantindo que o “pistão” que empurra o alimento funcione com pressão suficiente.